Blues - Filho do sofrimento

Quando os escravos negros na América do Norte inventaram o blues, com base nos versos improvisados das "work songs" nas plantações do Mississipi, toda a música popular do século XX, do Jazz ao Rock, foi radicalmente influenciada.

O blues, filho do sofrimento, tem como característica principal, uma melancolia que mistura resignação e esperança, reflexo do meio social vivenciado pelos escravos no "exílio" e também canções de amores perdidos sempre com uma forte carga sensual que é típica da raça negra.

Outra característica marcante é a qualidade vocal encontrada no blues. Os músicos instrumentistas procuram reproduzir a voz nos seus instrumentos. As notas parecem gemidos, gritos, sussurros etc. Estas características foram exploradas ao máximo no rock por músicos como Jimi Hendrix (1942 - 1970).

Voltando ao início, podemos entender a necessidade da criação de uma cultura própria negra na América, pois a religião africana era proibida aos escravos e a cultura européia era evidentemente limitada aos brancos.

Os versos abaixo demonstram a resistência negra ao processo forçado de aculturação:

White man use whip
White man use trigger,
But the Bible and Jesus
Made a slave of the nigger

O branco usa o chicote
O branco usa o gatilho
Mas a Bíblia e Jesus
Fizeram do negro um escravo.

Os acordes básicos do blues são derivados da harmonia européia, possuindo as áreas: tônica, subdominante e dominante. Geralmente utilizam-se acordes do tipo DOM7 (acordes de tensão). No entanto, a grande invenção de algum negro africano foi a criação das "blue notes", notas abaixadas que contrastam com a harmonia tradicional como 3M e 3m, 7M e 7m, 5J e 5dim.

O blues tem uma escala própria, que pode ser definida como uma escala pentatônica menor onde acrescentamos a b5. A escala de blues tem este nome porque contém as "blue notes" e, portanto, serve para enriquecer e caracterizar o blues.

A escala de blues é um dos exemplos mais bonitos e reconhecidamente aceitos de "notas erradas" e "proibidas" - que não pertencem à escala do acorde - mas que podem soar bem quando usadas de forma adequada. Na verdade, não há explicação teórica para o efeito das “blue notes”.

O poeta francês Jean Cocteau considerava o blues a única contribuição autêntica e importante de inspiração popular à literatura deste século. A poeta americana Elizabeth Bishop admitia que seu pentâmetro jâmbico favorito era "I hate to see that evenin' sun go down", da letra de St. Louis Blues de W.C. Handy.

O músico mais lendário e influente no cenário do blues é, sem dúvida, Robert Johnson que gravou apenas 29 músicas que foram adaptadas por vários guitarristas de rock como Eric Clapton e Keith Richards dos Rolling Stones.

Segundo a lenda do blues, Robert Johnson teria vendido a alma ao diabo na encruzilhada das rodovias 61 e 49 em Clarksdale, Mississipi em troca da habilidade com a guitarra. Esta fama foi difundida principalmente por causa de algumas de suas letras como “Crossroad Blues”.

Em minha opinião, o guitarrista que melhor representou a alma do blues foi Stevie Ray Vaughan (1954 - 1990), que aparece na foto da postagem mastigando a sua tradicional Fender Stratocaster. Apesar de branco e texano, as suas interpretações ficaram marcadas por uma força inigualável.


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