Sylvia Plath & Ana Cristina Cesar

Na manhã de 11 de fevereiro de 1963, durante um dos piores invernos ingleses já registrados, a poeta americana Sylvia Plath serviu leite para seus dois filhos, Frieda (3 anos) e Nicholas (1 ano), quebrou a vidraça da janela para garantir a ventilação que salvaria a vida das crianças e trancou, vedando cuidadosamente, a porta do quarto. Após estas providências, foi até a cozinha e abriu a válvula de gás, colocando sua cabeça dentro do forno, não era a primeira vez que ela tentava o suicido, mas desta vez foi bem sucedida. Sylvia Plath tinha apenas 31 anos.

Os principais poemas de Sylvia Plath (1932 - 1963) foram escritos nos seus últimos meses de vida, após a separação do marido e poeta inglês Ted Hughes, em 1962. Estes poemas foram publicados no livro “Ariel’ dois anos após sua morte.

Em um de seus poemas finais, “Lady Lazarus”, incluído em “Ariel” ela escreveu profeticamente: ''Dying / is an art, like everything else. / I do it exceptionally well''.

Adicionalmente, Hughes publicou três outros livros póstumos de Sylvia Plath, incluindo “Collected Poems”, que recebeu o prêmio Pulitzer de 1982. Pela primeira vez o prêmio Pulitzer de poesia foi concedido para um poeta de maneira póstuma.

Words
(Sylvia Plath)

Axes
After whose stroke the wood rings,
And the echoes!
Echoes travelling
Off from the center like horses.

The sap
Wells like tears, like the
Water striving
To re-estabilish its mirror
Over the rock

That drops and turns,
A white skull,
Eaten by weedy greens
Years later I
Encounter them on the road —

Words dry and riderless,
The indefatigable hoof-taps.
While
From the bottom of the pool, fixed stars
Govern a life.

Palavras
(Sylvia Plath)

Golpes,
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.

A seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
sobre a rocha

Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro

Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.

Traduzido por Ana Cristina Cesar
in Escritos da Inglaterra, Ed. Brasiliense, Brasil, 1988, p. 173)

A poeta e tradutora brasileira Ana Cristina Cesar (1952 - 1983) desenvolveu um de seus melhores trabalhos ao traduzir as poesias de Sylvia Plath e o exemplo acima não deixa dúvidas quanto à qualidade da tradução.

Praticamente vinte anos após a morte de Sylvia Plath, no dia 29 de outubro de 1983, Ana Cristina Cesar conseguiu chegar ao mesmo objetivo, atirando-se do apartamento dos pais, na segunda e última tentativa de suicídio. Ela tinha apenas 31 anos.

O destino foi semelhante com essas duas mulheres que não conseguiram viver, mas expressaram sua dor da forma mais pura possível, como no poema abaixo de Ana Cristina Cesar.

Olho muito tempo o corpo de um poema
(Ana Cristina Cesar)

Olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas

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