Vida sem Fim - Lawrence Ferlinghetti

O simpático senhor aí ao lado é o poeta Lawrence Ferlinghetti, talvez o maior expoente ainda vivo da literatura beat americana, fundador da livraria e editora independente City Lights em 1953 e responsável pela divulgação do movimento nos Estados Unidos, publicando autores como Allen Ginsberg e Jack Kerouac. A imagem na foto já não consegue expressar bem a força de uma das personalidades mais libertárias e criativas do século XX.

Citando a excelente crônica “o médio opositor” do Arthur Dapieve: “Allen Ginsberg morreu em 1997. Gregory Corso morreu em 2001. Lawrence Ferlinghetti não tem, aos 88 anos, como estar se sentindo muito bem. É o sobrevivente da tríade de poetas que fez a glória e a miséria – tematicamente mais esta do que aquela, é verdade – da poesia beat, no geral bem superior à prosa beat, da qual o superestimado Jack Kerouac foi o nome mais badalado.

O trecho da poesia abaixo, "endless life", com tradução de Paulo Leminski (a poesia completa e original se espalha por seis páginas e está incluída na antologia "vida sem fim" da editora Brasiliense de 1981) é um excelente exemplo da força criativa e vontade de viver de Ferlinghetti que talvez expliquem a sua longevidade.

Endless Life
(Lawrence Ferlinghetti - 1980)

Endless the splendid life of the world
Endless its lovely living and breathing
its lovely sentient beings
seeing and hearing feeling and thinking
laughing and dancing sighing and crying
through endless afternoons endless nights
of love and ecstasy joy and despair
drinking and doping talking and singing
in endless Amsterdams of existence
with endless lively conversations
over endless cups of coffee
in literary cafe in rainy mornings
Endless street movies passing
in cars and trams of desire
on the endless tracks of light
And endless longhair dancing
to airless punk rock and airhead disco
through Milky Way midnights
to the Paradisos of dawn
talking and smoking and thinking
of everything endless at night
in the white of night the light of night
Ah yes oh yes the endless living and loving
hating and loving kissing and killing
Endless the ticking breathing breeding
meatwheel of life
turning on and on through time
Endless life and endless death
endless air and endless breath

Vida Infinda
(tradução de Paulo Leminski)

Infinda a esplêndida vida do mundo
Infindos seus lindos seus vivos seus vívidos
seus lindos seres vivos
ouvindo e vendo pensando e sentindo
dançando e rindo soluçando e ganindo
por tardes infindas infindas noites
de amor e êxtase júbilo e agonia
bebendo e queimando falando e cantando
em infindas Amsterdams da existência
com infindos diálogos animados
sobre infindas xícaras de café
em clubes literários nas manhãs de chuva
Infindos filmes das ruas passando
em carros e trens de desejo
nas infindas trilhas da luz
E infindos cabelos longos dançando
ao som do punk rock e da disco
através de Vias Lácteas meia-noites
até os Paradisos da madrugada
falando e fumando e pensando
do tudo infindo da noite
no alvo leite da noite a luz da noite
Ah sim oh sim o infindo viver e amar
odiar e amar beijar e matar
Infinda a tique-taque respira tritura
máquina-carne da vida
gira-girando através do tempo
Infinda vida e infinda morte
infindo ar e infindo respirar

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