Martin Amis - Água Pesada e Outros Contos

Martin Amis - Água Pesada e Outros Contos - Editora Companhia das Letras - 272 páginas - Publicação 2001 - Tradução de Rubens Figueiredo.

Esta edição reúne nove contos do escritor britânico Martin Amis (ver aqui biografia divulgada durante a FLIP 2004), cobrindo o longo período de 1976 até 1997, e publicados originalmente em diversos jornais e revistas literárias como: New Yorker, Encounter, Granta, New Statesman e Esquire. Martin Amis foi assistente editorial do Times Literary Supplement, editor literário do New Statesman e escritor especial do Observer.

Subvertendo as normas sociais, o humor ácido de Amis inventa situações surpreendentes e que nos fazem pensar, como em "Ficção Hétero", publicado na Esquire em 1995, que apresenta uma sociedade onde a homossexualidade é o padrão aceito como "normal" e a heterossexualidade um "desvio" comportamental que transforma as pessoas em meros procriadores, perseguidos por todo tipo de preconceito. Ver como exemplo o diálogo abaixo onde um casal homossexual discute a notícia publicada em um jornal sensacionalista sobre a verdadeira opção sexual do astro de cinema Burton Else (qualquer comparação com a vida real é obviamente intencional):

– É, ouvi falar. Burton.

– Burton. Ele nega. Vai processar a revista hétero que o dedurou. “E eu também não apóio estilos de vida alternativos.” Mas eles juntaram um monte de garotas de programa que fazem fila para contar os segredos dele. Burton Else, hétero. Meu Deus, nada mais é sagrado? Céus, onde é que eles foram inventar de se chamar de héteros? Pegaram um bom radical grego, antigo e sério, cheio de classe, e esculhambaram com ele para a gente não poder mais usar.

– É mesmo um radical bastante usado. Eu encontro de vez em quando. Hétero.

– São coisas heterogêneas.

– São economistas heterodoxos.

– São os heterônimos do poeta.

– São plantas heterogâmicas.

– São médicos heteropatas.

– Que diabo é isso?

– A medicina alopata. Alopatia.

– Puxa, será que todo médico alopata é hetero? Meu Deus. Só vai nos restar a homeopatia (...).

Em "Ascensão Profissional", publicado originalmente em 1992 na revista New Yorker, a inversão mostra poetas que faturam milhões com destaque na mídia e sociedade, enquanto roteiristas de cinema, vivendo na pobreza, esperam por vários anos a oportunidade de publicar seus roteiros em revistas especializadas de baixa tiragem.

Um dos melhores contos desta edição, na minha opinião, foi publicado em 1981 na revista Granta com o título de "Quero calcular quantas vezes". Lembro que li este conto de uma só vez em uma tarde na Livraria da Travessa do Leblon. Logo no início Martin Amis conquista o leitor com esta apresentação:

"Vernon fazia amor com a esposa três vezes e meia por semana, e isso estava muito bem. Por algum motivo, fazer amor sempre tinha essa média. Normalmente - se bem que nunca invariavelmente - eles faziam amor uma vez a cada duas noites. Por outro lado, sabia-se que Vernon podia fazer amor com a esposa sete noites consecutivas; nas sete noites seguintes, não faziam amor - ou talvez viessem a fazer uma vez só, mas nesse caso só fariam amor duas vezes na semana seguinte, mas quatro vezes depois disso - ou talvez só três vezes, e nesse caso fariam amor quatro vezes na semana seguinte, mas só duas vezes na semana subsequente - ou talvez uma só. E assim por diante. Vernon não sabia por quê, mas fazer amor sempre dava essa média; parecia invariável. De vez em quando - e por acaso isso era de admirar? - Vernon descobria que tinha vontade de que a semana tivesse apenas seis dias, ou nada menos do que oito dias, para tornar esses cálculos (que tinham sempre um efeito aprazivelmente fortificante para o espírito) mais fáceis de manejar. (...)"

Podemos dizer que o humor, de certa forma bizarro, de Martin Amis é como uma lente de aumento em nosso cotidiano, destacando, ampliando e fazendo refletir sobre o absurdo do comportamento em sociedade, mas sempre provocando simpatia e identificação. Afinal, somos todos humanos.

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