João Ubaldo Ribeiro - O Albatroz Azul

Editora Nova Fronteira
João Ubaldo Ribeiro - O Albatroz Azul - Editora Nova Fronteira - 236 páginas - Publicação 2009.

João Ubaldo Ribeiro, prêmio Camões 2008, está de volta com um novo e belo romance que, se não apresenta o mesmo nível experimental do revolucionário e violento Sargento Getúlio (1971) ou a discussão satírica sobre a identidade nacional presente no ambicioso Viva o Povo Brasileiro (1984), por outro lado nos mostra um autor que atingiu a maturidade e já pode simplesmente escrever sem se preocupar com prêmios e críticas literárias, agora escreve apenas com a motivação de contar uma boa história, coisa que ele domina como poucos e acaba nos trazendo, à medida que lemos, sempre um delicioso sorriso de ironia, fenômeno parecido ao que ocorre com poucos autores contemporâneos como Gabriel Garcia Marques em seu último Memórias de Minhas Putas Tristes ou José Saramago em Viagem do Elefante.

A narrativa é ambientada na já famosa Ilha de Itaparica, Bahia, cenário de outros romances e crônicas do autor, mas bem poderia se passar, com as devidas adaptações, em Cuba, Gênova, Atenas ou Istambul, já que o foco da história está centrado no homem e seus eternos questionamentos sobre o intangível sentido da vida e da morte. Assunto sério, mas que fica leve e gostoso ao correr da pena de João Ubaldo e isso não quer dizer que ele tenha descuidado do seu eterno manancial de palavras surpreendentes ou inventadas, como ele próprio explica em entrevista ao Estadão: “Dificilmente eu invento - se inventei, deve ter sido mais por ignorância ou porque achei que a palavra existia. Tenho muito pudor com neologismos. Eu estropio algumas palavras e espero que o leitor perceba. Usei algumas expressões usadas em Portugal e também regionais. Só quando tenho algum personagem pernóstico, como Nascimento Clarineta, que só fala difícil, aí utilizo sinônimos rebuscados, preciosos.”

Esta, portanto, é a fábula de Tertuliano Jaburu, um homem já idoso e que recebe alguns presságios sobre o nascimento de um neto varão, profecia que não é compartilhada por nenhuma pessoa da ilha devido à série de filhas e netas da família que indicavam sem sombra de dúvida que a oitava gestação de sua filha mais velha Belinha daria em fêmea, opinião confirmada pela experiente parteira Altina Pequena, "aparadeira que nunca sofreu derrota nem nos partos mais enredados, dos três mil e tantos que dizia o povo haver ela pilotado, e que de seu riscado entendia tanto que, só de olhar para uma criatura tida por todos como donzela recatada, adivinhava por mil indícios sutis que ela estava embarrigada, pois que nascera com esse dom e era autoridade em todas as reproduções, das de galinha poedeira às de mulher parideira (...) Somente quando insistiam era que, com o semblante mortificado próprio do sábio afrontado pela ignorância, alisava a barriga de Belinha, dava um muxoxo e proclamava que aquele bichinho lá dentro era fêmea, fêmea, fêmea, tão certo quanto o sábado sucede a sexta, desde que Deus criou o mundo."

Tertuliano profetiza ainda que este neto terá um destino fabuloso e o fato de ter sobrevivido a um difícil parto, que o fez nascer macho e literalmente com a "bunda virada para a lua", só vem a confirmar este vaticínio. Tertuliano está certo de que o futuro deste neto trará, de alguma forma, uma compensação para os sofrimentos pelos quais ele passou quando criança e que o traumatizaram por toda a sua vida e, nem mesmo a sua morte próxima, também profetizada, pode assustá-lo visto que ele está para renascer na vida de seu neto. Para explicar a origem do trauma de Tertuliano, João Ubaldo remete à história da família desde a chegada de seu avô ao Brasil, "rico português Nuno Miguel Botelho Gomes, que chegou à Bahia com uma mão na frente e outra atrás (...)" e mais prefiro não contar para não estragar o prazer da leitura e da descoberta de um romance como só João Ubaldo poderia escrever.
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