Granta Vol. 2 - Longe Daqui

Revista Granta em português Vol. 2 - Editora Objetiva, Selo Alfaguara, 2008

Esta segunda edição da revista literária Granta em português seguiu o padrão da matriz de alternar nomes consagrados com a nova safra de escritores, no nosso caso tanto em língua portuguesa quanto inglesa, reunindo o seguinte time de autores: Edmund White, Paul Theroux, Carlos Diegues, Geoff Dyer, Ignácio de Loyola Brandão, Ricardo Lísias, Arnaldo Jabor, Ismail Kadaré, Lourenço Mutarelli, Amitav Ghosh, James Fenton e Hilton Ribeiro.

O elo que une todos os contos desta edição é o das viagens, reais ou imaginárias, escritas de memória ou criadas da mais pura imaginação e até mesmo viagens lisérgicas como a que Arnaldo Jabor descreve em "A viagem com Lucy nos Céus de Diamantes" em plena ditadura brasileira dos anos 70. Os textos de autores estrangeiros incluídos nesta coletânea foram selecionados de edições da revista Granta lançadas entre 1985 e 2006, e do número 7 da Granta em espanhol.

O conto "Sintra" de Carlos Diegues é a narrativa sentimental de sua viagem a Portugal, Sintra, com o objetivo de trazer o amigo Glauber Rocha, já bastante doente e debilitado, de volta para o Brasil para cuidar de sua saúde. A lembrança desses últimos dias, compartilhados com Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, e em que ele ainda conseguiu conviver com Glauber consciente e cheio de planos é uma espécie de última homenagem ao amigo que morreu com apenas 42 anos.

Já "White Sands" do inglês Geoff Dyer é um thriller que ensina os perigos de se dar carona para estranhos no sul dos Estados Unidos. Depois de uma tarde agrádavel no Parque Nacional de White Sands, um jovem casal dirigindo de Alamogordo para El Paso na rodovia 54, resolve ajudar um rapaz e somente alguns minutos depois consegue ler claramente o seguinte aviso: "Não dê carona, presídios na área". Bem, o clima fica um pouco estranho no carro, como era de se esperar: "Então, em vez de pedir a ele para sair, permanecemos em um silêncio tenso. O carro seguia veloz. Não parecia haver motivo para desacelerar. Em qualquer situação há sempre algo positivo a enfatizar. Nessa, era o fato de que não havia nenhum engarrafamento".

Na minha opinião o melhor conto desta coletânea é "A Queda de Saigon" de James Fenton, uma mistura de aventureiro e correspondente de guerra independente, que presenciou em 1975 os últimos dias de Saigon antes da chegada dos norte-vietnamitas. Francamente simpático, no início, à posição política do Vietcongue, Fenton acabou descobrindo que a bandeira da liberdade é muitas vezes utilizada sem o devido conhecimento de causa, como é o caso do regime do Khmer Vermelho. Essa passagem demonstra bem este sentimento: "Estava se tornando impossível para mim trabalhar como jornalista. Até então todas as minhas histórias tinham por tema o retorno da vida ao normal, mas quando a censura começou foi muito difícil descrever a normalidade de forma verídica. Escrevi uma história sobre uma fábrica de redes de pescar que tinha recebido ordem de permanecer aberta mantendo todos os empregos, embora não houvesse fios de nylon para as redes (...)". Outra passagem em que Fenton define um dos problemas dos correspondentes: "As duas primeiras leis do jornalismo freelancer são: quanto mais reportagens você envia, mais ganha; e quanto mais você envia, menos apura".
13 comentários
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Postagens mais visitadas deste blog

As 20 melhores distopias da literatura

Miriam Mambrini - Pássaros Pretos

Orhan Pamuk - Uma Sensação Estranha

Os meninos da rua Paulo - Ferenc Molnár

As 20 melhores utopias da literatura

Lee Jeffries - Lost Angels