Nova Antologia do Conto Russo (1792-1998)

Editora 34 - Literatura russa
Nova Antologia do Conto Russo (1792 - 1998) - 648 páginas - Editora 34 - Organização de Bruno Barretto Gomide - Tradução de Boris Schnaiderman e outros - Lançamento 2011.

A editora 34 lançou, no final do ano passado, uma Antologia que é um presente para os leitores em língua portuguesa, reunindo autores já conhecidos do grande público, em traduções inéditas e diretas do idioma russo, como Púchkin, Gógol, Dostoiévski, Turguêniev, Tchekhov, Tolstói, Górki, Pasternak, Bábel e Nabókov e também outros francamente desconhecidos como Gárchin, Odóievski, Katáiev, Grin, Chalámov, Kharms e Platónov (ver aqui a relação completa de contos e autores). Edição muito bem cuidada e que apresenta um resumo de cada conto no contexto histórico em que foi criado, além de introdução de Bruno Barretto Gomide e biografia resumida de cada um dos tradutores.

Uma seleção de quarenta contos, sendo apenas um para cada autor, o que me leva a pensar nas dificuldades do organizador para escolher apenas um conto no caso de autores com uma grande produção e que se tornaram clássicos da narrativa curta como Tchekhov ou Bábel. Um texto nesta Antologia me impressionou bastante, uma abstração literária sobre os últimos dias do poeta Óssip Mandelstam (1891 - 1938), preso durante o regime de Stalin, publicado em 1958 por um autor que eu desconhecia completamente: Varlam Chalámov (1907 - 1982). O conto é uma verdadeira preciosidade que eu não pude deixar de compartilhar e que demonstra o nível desta edição.

Xerez - Um conto de Varlam Chalámov
Tradução de Nivaldo dos Santos

O poeta estava morrendo. As mãos grandes, inchadas pela fome, com dedos brancos e descorados e unhas sujas e quase dobrando de compridas, estavam sobre o peito, sem se proteger do frio. Antes ele as enfiava dentro da roupa, sobre o corpo nu, mas agora ali fazia só um pouquinho de calor. As luvas tinham sido roubadas há tempos; para roubar, bastava descaramento: roubava-se à luz do dia. Um sol artificial e fraco, emporcalhado por mosquitos e preso com um arame curvo, estava fixado bem alto sobre o teto. A luz caía nas pernas do poeta: ele jazia como se estivesse numa caixa, no fundo escuro da parte de baixo de beliches duplos e contínuos. De vez em quando os dedos das mãos se mexiam, estalavam como castanholas e tateavam um botão, uma casa, um buraco no casaco, espanavam algum cisco e paravam novamente. O poeta estava morrendo há tanto tempo que deixou de perceber que estava morrendo. Às vezes, passando por sua mente de um jeito mórbido e quase perceptível, vinha uma ideia simples e vigorosa: tinham lhe roubado o pão que ele colocara sob a cabeça. E aquilo foi um revés tão terrível que ele estava pronto para discutir, xingar, brigar, procurar e provar. Mas não tinha forças para tudo isso, e a ideia do pão enfraqueceu... E agora ele já pensava em outra coisa, que tinham de levar todos ao mar, que o navio atrasara por algum motivo, e que era bom ele estar ali. E desse jeito, leviano e inconstante, ele começou a pensar na grande pinta no rosto do faxineiro do hospital de isolamento. A maior parte do dia, pensou nos acontecimentos que preenchiam sua vida ali. As visões que lhe apareciam diante dos olhos não eram da infância, da juventude, do sucesso. A vida toda tivera de se apressar para algum lugar. É maravilhoso não precisar ter pressa, poder pensar devagar. E, sem pressa, pensava na grandiosa monotonia dos movimentos que antecedem a morte, naquilo que os médicos entenderam e descreveram antes dos pintores e dos poetas. A face de Hipócrates, a máscara do homem antes da morte, é conhecida de qualquer estudante de medicina. Essa monotonia enigmática dos movimentos que precedem a morte serviu de pretexto a Freud para as hipóteses mais ousadas. Monotonia, repetição: eis a base obrigatória da ciência. Aquilo que na morte é único foi procurado não pelos médicos, mas pelos poetas. Era um prazer não ter consciência de que ele ainda podia pensar. A náusea da fome há muito tinha se tornado familiar. E tudo estava em pé de igualdade: Hipócrates, o faxineiro com a grande pinta e a sua própria unha suja.

A vida entrava nele e saía, e ele ia morrendo. Mas a vida aparecia de novo, os olhos se abriam, surgiam ideias. Apenas os desejos não apareciam. Há tempos ele vivia num mundo onde frequentemente era preciso devolver a vida às pessoas: por meio de respiração artificial, glicose, cânfora, cafeína. O defunto ficava vivo outra vez. E por que não ficaria? Ele acreditava na imortalidade, na verdadeira imortalidade do homem. Sempre achara que simplesmente não havia nenhuma razão biológica para o homem não viver eternamente... A velhice é apenas uma doença curável; e, não fosse esse equívoco trágico, e até este momento insolúvel, ele poderia viver para sempre. Ou até que se cansasse. Mas de maneira alguma ele estava cansado da vida. Nem mesmo agora, naquele hospital transitório, a 'tranzitka', como dizem carinhosamente os seus habitantes. Esse lugar era o limiar do terror, mas não o próprio terror. Ao contrário, ali vivia o espírito da liberdade, e isso era sentido por todos. Na frente havia um campo, e atrás, uma prisão. Aquilo era um 'mundo em trânsito', e o poeta entendia isso.

Havia ainda outro caminho para a eternidade, o de Tiútchev:

Bem-aventurado quem visitou este mundo
Em seus instantes fatídicos. (1) 

Mas se, como era evidente, não lhe caberia ser eterno numa imagem humana, como unidade física, ao menos ele mereceria a eternidade artística. Chamaram-no de primeiro poeta russo do século XX, e ele sempre achou que realmente o era. Acreditava na eternidade de seus versos. Não teve seguidores, mas acaso os poetas o suportam? Escreveu também prosa, ruim, e artigos. Mas somente nos versos ele encontrou algo novo para a poesia, algo importante, como sempre lhe pareceu. Toda sua vida passada era literatura, livro, conto, sonho; e somente o dia de hoje era vida de verdade.

Tudo isso era pensado não numa discussão, mas em segredo, em algum lugar no fundo de si mesmo. Faltava paixão a essas reflexões. A indiferença o dominara há tempos. Tudo aquilo eram bobagens, 'correria de ratos', se comparado ao peso funesto da vida. Ele ficou admirado: como podia pensar tanto em versos quando tudo já estava resolvido, e isso ele sabia muito bem, melhor do que qualquer um? Quem precisava dele ali, e quem era igual a ele? Por que era preciso entender tudo isso? Ele esperou... e entendeu.

Naqueles instantes em que a vida voltava ao seu corpo e seus olhos turvos e semicerrados  começavam a ver, as pálpebras a estremecer e os dedos a se mexer, voltavam também os pensamentos, que ele não achava que eram os últimos.

A vida entrava como uma senhora despótica: ele não a conhecia, e mesmo assim ela entrava em seu corpo, em sua mente; entrava como versos, como uma inspiração. E o significado dessa palavra pela primeira vez revelou-se a ele em toda a sua plenitude. Os versos são aquela força vitalizadora que ele viveu. Precisamente isso. Ele não viveu por causa dos versos, ele viveu os versos.

Agora estava tão visível, tão sensivelmente claro, que a inspiração é que era a vida; diante da morte foi lhe permitido saber que a vida era inspiração, precisamente a inspiração.

E ele se alegrou por lhe ser permitido saber essa derradeira verdade.

Tudo, todo o mundo era comparado aos versos: o trabalho, o tropel de cavalos, uma casa, uma ave, uma rocha, o amor; a vida toda entrava de forma suave nos versos e ali se dissolvia comodamente. E assim devia ser, pois os versos são palavra.

As estrofes agora também se levantavam, uma após a outra, e embora há tempos ele não anotasse nem pudesse anotar seus versos, todas as palavras se levantavam facilmente num certo ritmo indicado e a cada hora inusitado. A rima era o instrumento de busca magnética de palavras e ideias. Cada palavra era uma parte do mundo, elas atendiam à rima, e todo o mundo passava com a rapidez de uma máquina eletrônica. Tudo gritava: me leve. Não, a mim. Não era preciso procurar nada. Era preciso apenas repelir. Era como se aqui houvesse dois homens: aquele que compõe ,que lançou seu molinete com toda a força, e o outro que seleciona e detém de vez em quando a máquina lançada. E ao ver que ele são os dois homens, o poeta entendeu que agora estava compondo versos verdadeiros. E por que eles não eram anotados? Anotar, publicar: tudo isso é mera vaidade. Tudo que nasce por interesse não é o melhor. O melhor é o que não foi anotado, que foi composto e desapareceu, que se dissipou sem deixar rastro; e somente a alegria criadora, que ele percebe e que não se pode misturar com nada, mostra que o poema foi criado, que o belo foi criado. Não estaria ele enganado? É infalível a sua alegria criadora?

Lembrou-se de como eram ruins, como eram poeticamente fracos os últimos versos de Blok, e de como Blok  parecia não perceber isso...

O poeta se obrigou a parar. Era mais fácil fazer isso ali do que em algum lugar de Leningrado ou Moscou.

Deu-se conta, então, de que há tempos já não pensava em nada. A vida saía dele outra vez.

Por longas horas ele permaneceu imóvel, e de repente viu perto de si uma espécie de alvo de artilharia ou mapa geológico. O mapa era mudo, e ele tentava em vão entender a imagem. Passou-se algum tempo até que ele percebeu que eram seus próprios dedos. Nas pontas dos dedos ainda restavam marcas marrons dos cigarros vagabundos fumados e sugados até o fim; nos travesseiros via-se claramente um desenho datiloscópico, como as curvas de um relevo de montanhas. O desenho era idêntico para todos os dez dedos: círculos concêntricos, parecidos com o corte de uma árvore. Lembrou-se de como certa vez, na infância, foi parado num bulevar pelo chinês da lavanderia que ficava no porão da casa onde crescera. O chinês o pegou casualmente por uma mão, pela outra, virou as palmas para cima e começou a gritar excitado alguma coisa em sua língua. Ocorre que ele declarou o menino um felizardo, possuidor de um sinal incontestável. O poeta se lembrou dessa marca de felicidade muitas vezes, sobretudo quando publicou seu primeiro livro. Agora ele se lembrou do chinês sem raiva nem ironia: para ele era indiferente.

O principal é que ele ainda não estava morto. Aliás, o que significa 'morrer como um poeta?' Deve haver algo infantilmente ingênuo nessa morte. Ou algo premeditado, teatral, como foi com Issiénin Maiakóvski.

Morrer como um ator ainda é compreensível. Mas morrer como um poeta?

Sim, ele adivinhava algo daquilo que o esperava adiante. Na passagem, teve tempo de entender e adivinhar muita coisa. E ele ficou alegre, ficou alegre em silêncio por sua impotência, e esperava morrer. Lembrou-se de uma antiga discussão carcerária: o que era pior, mais terrível, o campo de concentração ou a prisão? Ninguém tinha muita certeza de nada, os argumentos eram especulativos, e um homem trazido dos campos para a prisão sorria com certa crueldade. Ele gravou o sorriso daquele homem para sempre, tanto que tinha medo de lembrá-lo.

Imagine com que habilidade ele iria enganá-los, aos que o trouxeram ali, se morresse agora, com dez anos completos. Alguns anos atrás ele esteve no exílio, e sabia que fora inscrito nas listas especiais para sempre. Para sempre?! As escalas se alteraram, e as palavras mudaram de sentido.

De novo ele sentiu o afluxo inicial das forças; exatamente um afluxo, como o mar. Um afluxo de muitas horas. Depois, um refluxo. Mas o mar não sai de nós para sempre. Ele ainda vai se restabelecer.

Subitamente ele quis comer, mas não tinha forças para se movimentar. Lembrou-se, lentamente e com dificuldade, de que dera a sopa do dia ao vizinho, que uma caneca de água fervente fora seu único alimento nesse último dia. Além de pão, é claro. E o pão fora distribuído há muito, muito tempo. E o da véspera tinha sido roubado. Alguém ainda tinha forças para roubar.

E assim ele permaneceu deitado, de um jeito leviano e irrefletido, até que a manhã chegou. A luz elétrica ficou um pouco mais amarela, e trouxeram pão em grandes bandejas de compensado, como faziam todo dia.

Mas ele já não se importava, não procurava cascas de pão, não chorava quando não lhe sobravam essas, não enfiava um bocado na boca com dedos trêmulos, e o bocado derretia instantaneamente, suas narinas se inflava, e ele sentia com todo o seu ser o gosto e o cheiro de pão de centeio fresco. Mas esse bocado ele já não tinha na boca, embora não tivesse tempo de engolir ou mexer a mandíbula. O pedaço de pão tinha derretido, sumira, e isso foi um milagre, um dos muitos milagres dali. Não, agora ele não se importava. Mas quando lhe meteram nas mãos a sua cota diária, ele a envolveu com seus dedos sem cor e apertou o pão contra a boca. Ele mordia o pão com seus dentes infeccionados; as gengivas sangravam, os dentes quase caíam, mas ele não sentia a dor. Apertava o pão contra a boca com todas as forças, enfiava-o na boca, mordia-o, rasgava, roía...

Os vizinhos o detiveram:

Não coma tudo, é melhor terminar depois, depois...

E o poeta entendeu. Arregalou os olhos, sem deixar cair dos dedos sujos e azulados o pão ensanguentado.

Ao anoitecer, ele morreu.

Mas deram baixa dois dias depois. Seus engenhosos vizinhos conseguiram, durante a distribuição de pães, receber por dois dias a cota do defunto; e este erguia a mão como uma marionete. Portanto, ele morreu antes da data de sua morte, um detalhe bem importante para seus futuros biógrafos. 

(1) Versos de "Cícero", do poeta e diplomata Fiódor Ivánovitch Tiútchev (1803 - 1873). (N. do T.).
12 comentários
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Postagens mais visitadas deste blog

Tianjin Binhai Library, a mais nova biblioteca da China

Joël Dicker - A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert

Jesmyn Ward vencedora do National Book Award 2017

As 20 melhores distopias da literatura

As 20 obras mais importantes da literatura brasileira

As 20 melhores utopias da literatura