Philip Roth - Patrimônio

Literatura contemporânea norte-americana
Philip Roth - Patrimônio - 192 páginas - Editora Companhia das Letras - Tradução de Jorio Dauster - lançamento 2012 (ler aqui um trecho em pdf disponibilizado pela editora).

Philip Roth não tem mesmo pena de seus protagonistas, assim como nos romances mais recentes: Fantasma Sai de Cena e O Animal Agonizante, o tom também é autobiográfico neste Patrimônio, lançado originalmente em 1991, ao ponto de merecer o subtítulo: uma história real. Roth mergulha na sua tragédia particular ao narrar os últimos dias de relacionamento com o pai de 86 anos, vítima de um tumor cerebral. Apesar de tudo a escrita é precisa como sempre, mesmo ao tratar de um tema tão doloroso e pessoal, o autor consegue transformar em literatura a difícil luta de pai e filho contra a decadência gradual que vai tomando conta do corpo de Herman Roth. O olhar pragmático de Philip Roth não deixa espaço para qualquer esperança, seja de caráter científico ou religioso. Nesta sombria passagem do romance percebemos a dolorosa carga de realidade contida no texto e que Roth quase chega a transformar em ficção:
"Estar sozinho também me possibilitava expressar toda a emoção que eu sentia sem necessidade de assumir uma postura máscula, madura e filosófica. A sós, eu chorava quando me dava vontade de chorar, e nunca essa vontade foi tão grande como quando tirei do envelope a série de imagens do cérebro dele não porque eu fosse capaz de identificar com facilidade o tumor que lhe invadia o cérebro, mas simplesmente porque se tratava do cérebro dele, do cérebro do meu pai, daquilo que o fazia pensar da forma curta e grossa com que pensava, falar da forma enfática com que falava, raciocinar da forma emotiva com que raciocinava, decidir da forma impulsiva com que decidia. Aquele era o tecido que produzira seu conjunto de infindáveis preocupações e por mais de oito décadas sustentara sua teimosa autodisciplina, a fonte de tudo que me havia frustrado tanto como filho adolescente, a coisa que comandara nossos destinos nos tempos em que ele era todo-poderoso e ditava os propósitos da família — tudo isso agora estava sendo comprimido, deslocado e destruído por uma 'grande massa localizada predominantemente na região dos angulos cerebelopontinos e das cisternas prepontinas.'"
Para aqueles que já passaram por experiência semelhante ao acompanhar os momentos finais de um pai ou mãe, é impossível não se identificar com o sentimento de medo e angústia que passa a fazer parte do nosso cotidiano, a triste sensação de querer que tudo acabe logo, mesmo sabendo que não há outro final possível que não aquele que mais tememos. Enfim, somente Roth conseguiria sintetizar, em tão poucas e simples palavras, o abandono e a solidão de quem fica:
"O que os cemitérios provam, ao menos para gente como eu, não é que os mortos estão presentes, mas que se foram de vez. Eles se foram, enquanto nós, por enquanto, não fomos. Isso é fundamental e, embora inaceitável, bem fácil de compreender."
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