Simon Schama - O Poder da Arte, Parte 5 - Turner

O Cais de Calais, 1803 (National Gallery, Londres)
"Turner é, acima de tudo, um dramaturgo da luz, o mais estupendo que a Inglaterra já produziu. Mas com seus jogos de luz e cor nunca visava efeitos puramente estéticos. Sentia necessidade de criar grandes óleos históricos — contrapartida moderna das cenas grandiosas de trágico terror produzidas por Poussin que vira no Louvre, em 1802, quando cruzou o canal durante a breve trégua nas guerras napoleônicas. Acreditava que o momento requeria essa grandiosidade (...) Passou a vida dividido entre contrários: claro e escuro apocalíptico e sereno. Algumas pessoas que o conheciam bem descrevem-no como um sujeito alegre e risonho, que gostava de brincar com crianças; já outras o viam como um homem reservado e rude, envolto num manto quase indevassável de lúgubre pessimismo. Talvez fosse ambos (...) Suas experiências com cor, levariam gerações posteriores a apontá-lo como o primeiro modernista." - Simon Schama - O poder da Arte (pág. 265 e 266)

Joseph Mallord William Turner (1775 - 1851) pagou um preço alto por ter antecipado o modernismo, abandonando gradativamente as imagens figurativas, como no exemplo acima do início da carreira, e evoluindo nos seus estudos de cor e luz em direção à arte abstrata. Foi considerado um louco e muitas vezes ridicularizado pela crítica da época. De qualquer forma, em todas as fases, um dos temas preferidos de Turner sempre foi a relação do homem com o mar, tão presente e importante na cultura inglesa, algumas vezes representando naufrágios famosos ou batalhas marítimas, ele "preferia o mar incontrolável, no auge da agitação, e se orgulhava de conhecer a dinâmica das marés seu fluxo e refluxo, ou o rendilhado das ondas quebrando na praia."

Tempestade de Neve: Vapor ao Largo do Porto, 1842 (Tate Gallery, Londres)
Existe uma lenda de que Turner se inspirou para pintar a obra impressionista "Tempestade de Neve: Vapor ao Largo do Porto" na experiência de ter sido amarrado durante quatro horas, por seu próprio pedido, ao mastro de um navio a vapor durante uma tempestade noturna. Este obviamente não parece ser um fato verdadeiro, uma vez que Turner contava então com 67 anos. A pintura foi duramente atacada pelos críticos como "espuma de sabão e caiação" e é representativa da última fase abstrata de Turner. Somente um crítico da época, John Ruskin, conseguiu antecipar a importância da obra definindo-a como "uma das afirmações mais grandiosas do movimento do mar, névoa e luz que jamais foram retratadas em uma tela."

Navio Negreiro, 1840 (Museum of Fine Arts, Boston EUA)
Simon Schama destaca "Navio Negreiro" como a obra marcante da carreira de Turner porque além da recorrente discussão sobre o mérito artístico, encontrou também forte oposição política devido ao tema polêmico (o próprio Turner era contrário à escravidão, causa que abraçara muitos anos antes). O quadro é inspirado no caso ocorrido em 1781, quando o capitão do navio negreiro Zong teria decidido jogar ao mar 132 africanos vivos, ainda acorrentados, para garantir o pagamanto do seguro. De acordo com a tratativa comercial da época, a "carga viva" estava no seguro, mas não os africanos mortos na chegada e, sendo assim, a seguradora só pagaria o que fosse considerado como "perdas no mar". Desta forma, o capitão Luke Collingwood  transformou os 132 africanos em perdas reembolsáveis. Outro motivo frequente na época para lançar a "carga" ao mar era para ganhar velocidade e se livrar das provas quando eram perseguidos pela Marinha inglesa.

"Em 1838, a Inglaterra completara a abolição da escravatura em seu império. A legislação original fora aprovada em 1833, mas estabelecera um período de 'transição' para escravocratas e escravos (...) Abolicionistas de toda parte — sobretudo nos Estados Unidos e das colônias espanholas e portuguesas, onde a escravidão não só persistia como prosperava, devido ao boom do algodão — depositavam suas esperanças na Inglaterra (...) Assim, o navio negreiro que ele pintou é, ao mesmo tempo, real e irreal. Tem o formato reduzido das ágeis embarcações que os traficantes utilizavam na esperança de escapar aos perseguidores. Agora, porém, está enfrentando a borrasca numa luta aparentemente desesperada, contando apenas com a bujarrona; e, como assinala o historiador da arte John McCoubrey, está navegando - na medida em que consegue navegar - na direção da tormenta." - Simon Schama - O poder da Arte (pág. 306 e 307)
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