Regina Taccola - Uma tarde embalada pelo mar

Literatura brasileira contemporânea
Regina Taccola - Uma tarde embalada pelo mar - Editora Frutos - Antologia de contos - 82 páginas - Lançamento: 2016.

Livro de estreia da psicanalista Regina Taccola, "Uma tarde embalada pelo mar" reúne 20 contos inspirados nos extremos do comportamento humano nas grandes cidades, normalmente utilizando como cenário a zona sul carioca, mais precisamente o bairro de Ipanema onde vive a autora. As narrativas são muito curtas, mas de extensão suficiente para provocar no leitor aquele tipo de desconforto que só a boa literatura provoca. A capa e o título podem sugerir um texto mais leve e poético, contudo não é somente isso que o leitor encontrará aqui. Na verdade, se reparamos com mais atenção, notaremos que a capa não é tão ingênua quanto nos pareceu à primeira vista, trata-se de um quadro de Vincent van Gogh, "Fishing Boats on the Beach at Saintes-Maries". Assim ocorre com esta antologia, avançar na leitura dos contos é como pisar em terreno minado, é preciso estar sempre atento para perceber o detonador que está cuidadosamente escondido em cada texto. 

Trabalhando entre os limites do que existe de belo e assustador na natureza humana, percebemos a forte influência da experiência médica de Regina Taccola no campo da psicanálise, uma vivência com o inconsciente que fica evidente em seus contos e se transforma em matéria prima na construção de seus personagens. A apresentação de Maria Christina Monteiro de Castro resume bem o estilo da autora estreante: "'Uma tarde embalada pelo mar' é assim, um mosaico que não se encaixa porque formado de sobras, cacos e retalhos. Uma mistura instigante do simples e do denso, do mais deslavado romantismo à bruta concretude do real sombrio, do conto breve, quase crônica, ao relato que tira o fôlego pela insuspeitada irrupção do perverso. Nada mais parecido com a vida."

Em "Audácia do Gato!", a protagonista é uma menina de quatro anos que é repreendida pelos adultos horrorizados: "Por que você fez isso?", "Por que? Parece maluca!". O espanto de toda a família é legítimo porque a menina acabou de fazer algo muito grave com o gatinho de estimação da casa e parece não se dar conta da importância da situação. Finalmente, ela acaba por ceder às súplicas da mãe e dá uma explicação surpreendente, "ajeita um cachinho atrás da orelha e conta: 'O gatinho vinha passando...' 'Pra lá e pra cá, pra lá e pra cá...' Eleva, então, a voz, trincada de excitação: 'Pra lá e pra cá, pralá e pracá, PRALÁEPRACÁ...' Espreme-se toda e depois relaxa: 'Aí, eu esganei ele.'" Mas, este não é o final da história, a autora guarda uma conclusão ainda mais inesperada.

"O rapaz do restaurante japonês" é uma história de solidão como tantas outras nas nossas grandes cidades, uma viúva de 70 anos mora em um pequeno apartamento "com excelente vista para o alto", uma situação típica dos prédios da zona sul carioca, construções em que as janelas normalmente têm vista para uma parede, e só resta mesmo a solução de olhar para o alto. Bem, a vida da solitária viúva está prestes a mudar quando ela encontra um garoto "bonito, forte" de "cabelos e olhos castanhos" que se apresenta como um sushiman que está com a cabeça rodando, devido a um besouro que entrou pelo seu ouvido. Ela logo percebe os delírios do rapaz que prepara sushis imaginários, mas decide ajudá-lo, levando-o para sua casa. Quando tudo leva a crer que a narrativa conduz a uma conclusão trágica, mais uma vez a autora nos surpreende, com um final de rara delicadeza e ternura.

No conto que empresta o título ao livro, "Uma tarde embalada pelo mar", encontramos uma descrição sensual de um casal entregue à própria paixão em um veleiro "no meio do nada": "Proa do barco, mar lascado, cabelos esvoaçando, chuveiro de água salgada, sol, sol e sol. O casco abria a fenda em vê, um risco fundo espumava. Ela era o barco voando ao vento bravo, agarrada na proa, olhos fechados, corpo de madeira, descabelada carranca de São Francisco abrindo caminho. Tensa, quase rangia, corcoveava as ondas e, junto com ele, era força da natureza. No silêncio atento, ele levava o barco a fazer amor com a água, no ar cheio de velas infladas, gemidos de vento e carícias de sal." Novamente, a autora leva a narrativa a um final inesperado. Nada é mesmo o que parece nos contos de Regina Taccola.
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