David Grossman - O inferno dos outros

Literatura - David Grossman
David Grossman - O inferno dos outros - Editora Companhia das Letras - 208 páginas - Tradução direta do hebraico por Paulo Geiger - Lançamento: 16/08/2016.

David Grossman divide a posição de protagonismo na literatura israelense contemporânea com Amós Oz, sendo que ambos defendem coincidentemente uma solução pacifista, por meio do reconhecimento de dois Estados, para o conflito entre judeus israelenses e árabes palestinos no Oriente Médio. Os dois autores também são muito criticados pelos movimentos sionistas mais radicais em todo o mundo por suas posições "esquerdistas" e considerados como traidores da causa de Israel. É claro que mesmo assumindo posturas políticas de não violência, as obras desses escritores não poderiam ser imunes ao cenário de conflitos e ódio em que vivem — o próprio Grossman perdeu um filho na Guerra do Líbano em 2006 — e, portanto, seus livros acabam ajudando a refletir sobre este tema, assim como a amarga herança do Holocausto que nenhum judeu (ou não judeu) é capaz esquecer até hoje.

"O inferno dos outros",  último lançamento de David Grossman, utiliza uma sofisticada e criativa estrutura narrativa, que se divide entre o presente e o passado, durante um show de stand-up em Netanya, uma pequena cidade do interior de Israel, apresentado pelo humorista decadente Dovale Grinstein. O leitor é guiado por meio dos fatos do passado, em parte pelas piadas autodepreciativas de Dovale e também pelos pensamentos e lembranças de um antigo amigo de infância, o juiz aposentado Avishai Lazar, que foi convidado pelo comediante para assistir à performance daquela noite com um pedido muito peculiar: o ex-juiz deve avaliar o que viu ao final do show. Lazar tem seus próprios problemas, sendo o maior deles o luto recente pela esposa mas, bastante contrariado, decide aceitar o convite do amigo que não encontrava desde a juventude. O repertório de Dovale é semelhante à maioria dos shows de stand-up, constituído de piadas politicamente incorretas e provocações grosseiras ao público, como podemos constatar no trecho abaixo que ilustra bem o seu estilo.
"Aqui entre nós, meus irmãos, agora eu deveria pôr a mão no coração e dizer a vocês como eu adoro, como sou louco por Netanya, não é verdade?" 'Verdade', respondem alguns jovens do público. "E como é bom para mim estar com vocês numa quinta-feira à noite nessa encantadora zona industrial, e ainda por cima neste porão, bem em cima dessas atraentes camadas de radônio, e tirar uma série de piadas da bunda para vocês, certo?" 'Certo!', o público grita. "Não!", o homem declara, esfregando as mãos satisfeito. "Tudo isso é besteira, com exceção da parte sobre a minha bunda, porque na verdade, deixa eu dizer uma coisa, não suporto essa cidade de vocês, essa Netanya me causa um pavor mortal! A cada dois sujeitos na rua, um parece um desses participantes do programa de proteção a testemunhas, e o outro está com o primeiro embrulhado num saco de plástico preto no porta-malas. E podem acreditar em mim, se eu não tivesse de pagar pensão alimentícia para três mulheres encantadoras, e também para um-dos-três-quatro-cinco filhos — cinco: ele enfia na cara do público uma mão com os dedos abertos —, juro, está aqui, diante de vocês, o primeiro homem na história que teve depressão pós-parto. Cinco vezes depressão pós-parto. Na verdade quatro, pois dois são gêmeos. E na verdade cinco, se contarmos também a depressão depois do 'meu' parto." (Págs. 10 e 11)
No entanto, durante a apresentação de Dovale, alguma coisa estranha ao tradicional estilo de comédia stand-up, começa a ocorrer quando a agressividade gratuita com as pessoas, a cidade e consigo mesmo, começa a mudar para uma espécie de melancólica autoanálise em público. Um trauma de infância ocorrido em um acampamento de uma base do exército no deserto de Negev, parte de um programa de treinamento militar para adolescentes israelenses chamado de Gadna, é a chave para entender o drama pessoal de Dovale que vai sendo descortinado aos poucos e ficamos conhecendo a triste história de sua infância quando criou o hábito de caminhar plantando bananeira (ler o trecho abaixo) para se defender do bullying dos colegas e das surras do pai. David Grossman explica em entrevista à Folha o perfil de seu personagem: "Dovale passou a ter uma vida paralela em relação a quem ele realmente era" e ainda: "Perdemos muito tempo tentando corrigir os defeitos que temos — no nosso corpo, na nossa alma —; tentamos escondê-los para que possamos ter uma aparência melhor", diz. "É um esforço tolo."
"Havia uma tradição bonita no meu bairro: bater no Dovale. Nada sério, um tapa aqui, um chute ali, um soquinho na barriga. Tudo sem maldade, sabe? Era só uma coisa técnica, como carimbar um ingresso. 'Você já espancou o Dovale hoje?' (...) Mas quando plantava bananeira, sabe?, ninguém bate num menino que anda de cabeça para baixo. Fato! Porque, se você quer dar um tapa num menino de cabeça para baixo, como vai achar o rosto? Quero dizer, você não vai se curvar até embaixo só para dar uma bofetada, né? Ou, por exemplo, como é que você vai dar um chute nele? Onde vai chutar? Onde estão as bolas dele agora? Meio confuso, não? Complicado, não? Talvez até até comecem a ter um pouco de medo dele, por que não? Um menino de cabeça para baixo não é brincadeira." (Pág. 81)
Devido à performance incomum, o público inicialmente não consegue compreender qual é a intenção do triste espetáculo, Dovale provoca um tremendo desconforto com a sua auto-exposição, uma espécie de vergonha alheia é criada em um ambiente cada vez mais tenso. No entanto, apesar do stand-up nada usual, os espectadores (e o perplexo leitor) continuam a assistir, não resistindo à tentação de espiar o inferno pessoal do comediante. Um livro surpreendente e de grande técnica literária que nos deixa todo o tempo em suspense e curiosos para conhecer os motivos de tanto sofrimento e de como o autor pretende chegar a um final convincente. Uma grande reflexão sobre os limites do humor e da dor provocada pela identificação com o que é humano em todos nós, este é o maior mérito de Grossman.
"Ele suspira, coça o cabelo ralo em suas têmporas. Certamente percebe que todo o espetáculo está desandando de novo. Ele está apoiado num galho que de repente ficou mais pesado do que a árvore inteira. O público também nota. As pessoas se entreolham e se agitam, inquietas. Entendem cada vez menos que coisa é essa da qual estão participando contra a vontade. Não tenho dúvida de que já teriam se levantado e ido embora há muito tempo, ou até mesmo enxotado Dovale do palco com assobios e gritos, não fosse essa tentação difícil de resistir: a tentação de espiar o inferno dos outros." (Págs. 85 e 86)
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