José Luís Peixoto - Galveias

Literatura portuguesa
José Luís Peixoto - Galveias - Editora Companhia das Letras - 272 Páginas - Lançamento no Brasil: 28/10/2015 (Ler aqui um trecho disponibilizado pela Editora).  

Gostei muito deste romance do português José Luís Peixoto, vencedor do Prêmio Oceanos 2016 (antigo Portugal Telecom de Literatura). O autor já tinha um nome consolidado desde 2001, quando recebeu o prêmio José Saramago para jovens escritores em língua portuguesa, juntando-se a um seleto grupo formado por Paulo José Miranda, Adriana Lisboa, Gonçalo  M. Tavares, Valter Hugo Mãe, João Tordo, Andréa del Fuego, Ondjaki e Bruno Vieira Amaral. No entanto, ainda não tinha lido qualquer livro dele e, confesso, fiquei impressionado com a criatividade e beleza do texto que me deixou uma agradável sensação de descoberta, coisa que, no meu caso, ocorre com periodicidade aproximada de cada cinco anos, quando tenho a certeza de estar conhecendo um novo clássico do nível do saudoso Saramago (a última vez, por exemplo, foi com Valter Hugo Mãe).

Galveias é a terra natal de José Luís Peixoto uma aldeia da região do Alentejo no interior de Portugal com pouco mais de 1000 habitantes e onde a modernidade da vida dos grandes centros urbanos, felizmente, ainda não chegou. No entanto, a pequena vila, em sua aparente simplicidade, inspirou o autor a criar uma surpreendente coleção de personagens que representa o que há de universal no ser humano e permanece inalterado em qualquer época ou lugar. A ação tem início em janeiro de 1984, durante um rigoroso inverno em que "o frio e o silêncio existiam ao mesmo tempo", silêncio que só era interrompido pelos latidos e uivos dos cães, também eles personagens que ajudarão a contar essa história. Em plena noite de ruas desertas, ocorre um evento misterioso que mudará a vida dos habitantes de Galveias para sempre, a queda da “coisa sem nome”, uma espécie de meteorito que abre uma cratera no campo, passando a exalar um terrível odor de enxofre que logo se espalha por toda a localidade. 
"No espaço, numa solidão de milhares de quilómetros onde parecia ser sempre noite, a coisa sem nome deslocava-se a uma velocidade impossível. O seu sentido era reto. Planetas, estrelas e cometas pareciam observar a decisão inequívoca com que avançava. Eram uma assembleia muda de corpos celestes a julgar com os olhos e com o silêncio. Ou, pelo menos, essa impressão era provável porque a coisa sem nome atravessava a lonjura do espaço com uma velocidade de tal ordem, de tal indiferença e desapego que todos os astros pareciam estáticos e severos por comparação, todos pertenciam a uma imagem nítida e pacífica. Assim, o mesmo universo que a lançara, que a insuflara de força e direção, assistia suspenso ao seu percurso. Existia o ponto de onde tinha partido, mas cada segundo destruía um pouco mais a memória desse lugar. Aquela sucessão de instantes compunha um tempo natural, isento de explicações. Passado sim, futuro sim, no entanto aquele presente impunha realidade, era composto apenas por ambições límpidas. E nem a violência que a coisa sem nome fazia ao rasgar caminho conseguia sobrepor-se à tranquilidade da sua passagem, distante de tudo e, mesmo assim, integrada numa arrumação cósmica, simples como respirar." (Págs. 12 e 13) 
O estranho acontecimento, com jeito de catástrofe bíblica, suas consequências imediatas e a reação da população ocupam todo o primeiro capítulo da narrativa que prosseguirá, a partir deste ponto, detalhando as histórias de cada personagem, ou grupo de personagens, da vila ou do campo, e suas relações com os outros habitantes em unidades praticamente independentes do todo, como se fossem contos. Um dos representantes mais fortes do campo e da agricultura é o velho Justino, um homem simples e cansado, mas que tem o conhecimento da importância da terra e do sacrifício das gerações anteriores que ajudaram na formação e no crescimento de um país com tradição de economia rural. “A terra é tudo o que existiu, desfeito e misturado." O velho Justino, já sentindo a morte próxima, nos mostra como o romance extrapola o cenário da pequena vila de Galveias para se transformar em uma alegoria da condição de Portugal frente à necessidade de modernização em uma Europa cada vez mais industrializada e globalizada.
"Não precisava de olhar para as costas da mão, subitamente magra, atravessada por veias azuis, para saber que estava velho. Revoltava-se contra essa injustiça. Em silêncio ou aos gritos, amaldiçoava o tempo que atravessava os ramos daquelas oliveiras. Muitas vezes parecia-lhe que tinha vivido demasiado. Para que queria aquele tempo? Ainda guardava capacidades, não havia de perdê-las sem estrebuchar, mas todos os dias reparava em alguma cois que faltava. Era como se morasse numa casa onde, todos os dias, fossem desaparecendo objetos. Durante anos, um objeto a ocupar um lugar, a torná-lo seu e, de repente, apenas a sua ausência. A existir e, logo depois, a não existir. E a ter de viver sem cada uma dessas coisas. E a ter de viver com o vazio das coisas que costumavam estar ali. Primeiro, as peças de enfeitar; a seguir, os pratos no louceiro; depois, tudo o que faz falta, até ficar só uma cama onde morrer." (Pág. 43)
No núcleo de personagens da vila, a brasileira Isabella ganha a vida como prostituta e padeira, duas atividades básicas que, segundo o seu raciocínio, mostram a necessidade "que todos os países têm de padeiros e de putas. Ninguém vive só da massa sólida e regenerativa do pão, como ninguém vive apenas da beleza vaporosa e lírica do sexo. Os corpos precisam desses dois tempos, as nações também." Isabella emigrou para Portugal atendendo a um acordo que fez com dona Fátima, "portuguesa até o centro da alma" e que "dominava raras competências de putaria" já com idade muito avançada. Segundo o acordo celebrado entre as duas no Brasil, Isabella herdaria todos os bens de dona Fátima com a condição de levar o corpo da colega para o seu descanso eterno em Galveias. Assim foi feito e Isabella se estabelece na vila abrindo um bordel e uma padaria, lado a lado. É curioso notar como o autor demonstra de forma irônica e bem-humorada que, apesar do preconceito ancestral, a coexistência das atividades profissionais é plenamente conhecida e consentida por toda a população, inclusive pelo padre a as beatas.

Por meio de uma quantidade considerável de personagens cativantes, verdadeiros e, principalmente, humanos, José Luís Peixoto recria com belas imagens uma realidade do interior de Portugal que bem poderia se adequar a uma pequena cidade no sertão nordestino brasileiro, uma aldeia chinesa ou um povoado africano, cumprindo uma das funções mais importantes da literatura que é nos fazer refletir sobre como somos iguais diante do nosso medo do desconhecido, representado pela "coisa sem nome" e suas referências ao apocalipse, sobre como as coisas realmente importantes permanecem as mesmas. Uma lição simples e importante para a nossa convivência neste pequeno planeta.
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