Bob Dylan - Letras (1961-1974) - Volume 1

Poesia
Bob Dylan - Letras (1961-1974) - Volume 1 - 648 Páginas - Editora Companhia das Letras - Tradução de Caetano Waldrigues Galindo - Lançamento no Brasil: 29/03/2017.

Um livro obviamente indispensável para os fãs de Dylan, mas também importante para entender os critérios que nortearam a decisão da Academia Sueca ao escolhê-lo para receber a mais alta honraria concedida a um escritor ou poeta vivo, o Nobel de Literatura 2016, uma decisão polêmica que foi questionada por muitos romancistas, poetas ou simplesmente puristas da literatura tradicional. Esta edição bilíngue é dividida em dois volumes e cobre toda a carreira e discografia do cantor e compositor em ordem cronológica, inclusive com algumas canções inéditas lançadas apenas em álbuns ao vivo. O primeiro volume compreende o período de 1961 até 1974 com alguns clássicos que marcaram a história do Rock como: "Blowin' in the Wind", "Like a Rolling Stone", "Mr. Tambourine Man" e "The Times They Are A-Changing".

A espinhosa tarefa de tradução das letras ficou a cargo do experiente Caetano W. Galindo, tradutor de obras tão complexas quanto "Ulysses" de James Joyce ou "Infinite Jest" de David Foster Wallace. Apesar de tamanha bagagem cultural, imagino que Galindo tenha enfrentado alguma dificuldade ao se deparar com desafios do tipo: "In the jingle jangle morning" de "Mr. Tambourine Man"  ou "Crimson flames tied through my ears" de "My Back Pages", o que dizer então do título de um dos melhores álbuns de Dylan, "Blonde on Blonde", como traduzir essas expressões que são enigmáticas até mesmo na língua de origem e sem poder contar com explicações do próprio autor já que Dylan concedeu poucas entrevistas sérias em toda a sua carreira, nem mesmo comparecendo à cerimônia de entrega do Nobel. A estratégia que orientou todo o processo de tradução foi priorizar a semântica e o sentido do texto em detrimento do ritmo e da métrica como explica o tradutor:
"Traduzir esses poemas segundo os critérios normais de tradução de poesia (com atenção a metro e rima, por exemplo) geraria vários problemas. O primeiro deles advém do fato de que a métrica e até as rimas das canções são estabelecidas em função de como elas foram cantadas. Os critérios não são os mesmos da poesia "de papel", já que aqui o autor pode mostrar ao público como os textos devem ser escandidos, como devem soar. Está ao alcance de Dylan todo um mundo que as notações rítmicas mais radicais de um poeta como Gerald Manley Hopkins apenas vislumbravam. (...) Mais ainda, temos que reconhecer que uma parte imensa da força da poética de Dylan está (sempre esteve) no 'o quê' de suas canções. Tanto nas formas narrativas mais longas quanto nos atos políticos mais incisivos e polêmicos. Tanto nos quase-poemas em quase-prosa quanto nas narrativas oníricas e humorosas. E forçar a rima, empurrar o metro, como sabe todo tradutor, tende a obscurecer a semântica, o sentido, em favor de correspondências estritamente formais." - Nota do Tradutor (Pág. 7)
Outra dificuldade adicional da tradução é a inevitável comparação do leitor com outras versões anteriores já publicadas no Brasil e em Portugal (esta de 2006, por exemplo, da editora portuguesa Relógio d´Água) ou até mesmo adaptações das músicas originais para o português por artistas brasileiros. No meu caso particular, conheço muitas dessas canções desde a adolescência, quando o inglês era insuficiente para tanto vocabulário e ainda considerando a difícil compreensão da dicção anasalada de Dylan — um intérprete que parece querer sempre destruir as próprias composições com releituras incompreensíveis — restando portanto enormes áreas não identificadas das letras que acabaram caindo no fértil campo da imaginação com significados e devaneios múltiplos, típicos da juventude e eventualmente impulsionados por substâncias químicas duvidosas. Bem, agora este problema está parcialmente resolvido para as futuras gerações de fãs do cantor e compositor que poderão utilizar esta edição definitiva como um guia confiável, explorando toda a discografia de Dylan em suas diferentes fases.

Uma rara oportunidade para os já iniciados e também iniciantes no universo de Dylan encontrarem todas as letras reunidas em uma edição bilíngue, cobrindo um período superior a cinco décadas, e assim constatar como o artista nunca negociou a independência e originalidade do seu trabalho com fórmulas de sucesso ou exigências do mercado, a cada novo álbum sempre experimentando novas correntes musicais e, muitas vezes, frustrando fãs e críticos que demandavam uma eterna repetição de sua obra, que Dylan se transformasse em um "cover" de si mesmo (como acontece com muitas bandas de Rock no cenário musical atual, sem a necessidade de citarmos nomes). A grande maioria das letras resiste ao teste implacável do tempo com exceção de algumas de cunho político muito específico e que ficaram datadas. Uma boa ideia para futuras edições seria o acréscimo de uma fortuna crítica e notas sobre as circunstâncias em que as canções foram concebidas, o contexto histórico da sociedade americana da época.

Visions of Johanna

(Bob Dylan, do álbum Blonde on Blonde)

Ain't it just like the night to play tricks when you´re trying to be so quiet?
We sit here stranded, though we're all doin' our best to deny it
And Louise holds a handful of rain, temptin' you to defy it
Lights flicker from the opposite loft
In this room the heat pipes just cough
The country music station plays soft
But there´s nothing, really nothing to turn off
Just Louise and her lover so entwined
And these visions of Johanna that conquer my mind

In the empty lot where the ladies play blindman's bluff with the key chain
And the all-night girls they whisper of escapades out on the "D" trhim or them ain
We can hear the night watchman click his flashlight
Ask himself if it´s him or them that's really insane
Louise, she´s all right, she's just near
She's delicate and seems like the mirror
But she just makes it all too concise and too clear
That Johanna's not here
The ghost of 'lectricity howls in the bones of her face
Where these visions of Johanna have now taken my place

Now, little boy lost, he takes himself so seriously
He brags of his misery, he likes to live dangerously
And when bringing her name up
He speaks of a farewell kiss to me
He's sure got a lotta gall to be so useless and all
Muttering small talk at the wall while I´m in the hall
How can I explain
Oh, it's so hard to get on
And these visions of Johanna, they kept me up past the dawn

Inside the museums, Infinity goes up on trial 
Voices echo this is what salvation must be like after a while
But Mona Lisa musta had the highway blues
You can tell by the way she smiles
See the primitive wallflower freeze
When the jelly-faced women all sneeze
Hear the one with the mustache say, "Jeeze
I can´t find my knees"
Oh, jewels and binoculars hang from the head of the mule
But these visions of Johanna, they make it all seem so cruel

The peddler now speaks to the countess who´s pretending to care for him
Sayin', "Name me someone that´s not a parasite and I´ll go out and say a prayer for him"
But like Louise always says
"Ya can´t look at much, can ya man?"
As she, herself, prepares for him
And Madonna, she still has not showed
We see this empty cage now corrode
Where her cape of the stage once had flowed 
The fiddler, he now steps to the road
He writes ev'rything's been returned which was owned
On the back of the fish truck that loads
While my conscience explodes
The harmonica play the skeleton keys and the rain
And these visions of Johanna are now all that remain

Visões de Johanna
(Bob Dylan, do álbum Blonde on Blonde)

Não é a cara da noite vir com truques quando você está tentando fazer tanto silêncio?
Estamos ali naufragados, apesar de fazer o melhor para negar
E Louise segura um punhado de chuva e te provoca a duvidar dele
Luzes brilham no apartamento do outro lado
Neste quarto tossem os canos do aquecimento
A estação de música country toca baixo
Mas não há nada, nada no fundo para desligar
Só Louise e seu amado tão entrelaçados
E essas visões de Joahanna que me tomam a mente

No terreno baldio onde as mulheres jogam cabra-cega com o chaveiro
E as moças que duram a noite toda sussurram aventuras no trem da linha D
Dá pra ouvir o vigia noturno ligar a lanterna
E se perguntar se é ele ou se são elas que estão loucas
Louise, ela é bacana, ela só está por perto 
É delicada e parece o espelho
Mas só deixa conciso e deixa claro demais 
Que Johanna não está
O fantasma da eletricidade uiva nos ossos do seu rosto
Onde essas visões de Johanna agora ocuparam meu lugar

Agora, garotinho perdido, ele se leva tão a sério
Se gaba de sua tristeza, gosta de viver perigosamente
E quando menciona o nome dela 
Ele me fala de um beijo de adeus 
Ele tem é muita coragem, pra ser tão inútil e tudo mais
Balbuciando bobagens pra parede enquanto eu estou no corredor
Como é que eu posso explicar?
Ah, é tão difícil se acertar
E essas visões de Johanna, que me fizeram passar a noite em claro

Dentro dos museus, o Infinito vai a julgamento
Vozes ecoam é isso que deve parecer a salvação depois de um tempo
Mas Mona Lisa deve ter cansado da estrada
Dá pra ver naquele sorriso
Veja travar o renegado primitivo
Quando as mulheres de rosto gelatinoso espirrarem
Ouça a de bigode dizer "Nossa
Estou de perna bamba"
Ah, as joias e binóculos pendem da cabeça da mula
Mas essas visões de Johanna fazem tudo parecer tão cruel

O mascate agora diz à condessa que finge se importar com ele
Dizendo "Me diga alguém que não é parasita que eu vou lá e rezo por ele"
Mas como Louise sempre diz
"Você não enxerga muita coisa, né, rapaz?"
Enquanto ela, por si só, se prepara pra ele
E a madonna, ela ainda não apareceu
Nós vemos essa jaula vazia agora enferrujar
Onde sua capa de cena um dia se desfraldou
O violinista, ele agora vai pra rua
Escreve que tudo devido já foi devolvido
Atrás do caminhão de peixe carregado
Enquanto minha consciência explode
As harmônicas tocam a chave mestra e a chuva
E essas visões de Johanna agora são o que resta
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