Sheyla Smanioto - Desesterro

Literatura contemporânea brasileira
Sheyla Smanioto - Desesterro - Editora Record - 304 páginas - Prêmio Sesc de Literatura 2015, Prêmios Jabuti e Biblioteca Nacional 2016, Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2016.

Tinhosa essa jovem Sheyla Smanioto, ainda nem completou trinta anos e já é dona de uma linguagem forte e inovadora, inspirada na melhor tradição de autores como Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. No entanto, não repete em nada o caminho já percorrido pelos clássicos, ela prefere escrever com coragem e voz própria sobre os temas, estes sim, infelizmente, ainda os mesmos na sociedade brasileira, os eternos movimentos migratórios que apenas transferem a miséria e a exclusão de grandes parcelas da população do interior para a periferia marginalizada das cidades, a violência doméstica diária contra a mulher e um estado de indigência permanente do povo, difícil de remediar porque é o reflexo de uma fome ainda maior, a fome de dignidade e educação. O texto de Sheyla vem carregado de imagens fortes, muitas vezes violentas, mas sempre com poesia e uma carga de dramaturgia que mistura realidade e sonho, refazendo também novos caminhos para o desgastado realismo mágico da literatura latino-americana, um efeito que nos enfeitiça e, só então, percebemos como somos conduzidos pelo ritmo da escrita que vai recriando a gramática em função de um objetivo estético maior, sensorial mesmo.

Partindo da cidade fictícia de Vilaboinha, não situada no tempo e no espaço, mas que deduzimos ser alguma localidade no interior da região norte ou nordeste do Brasil, a autora imaginou quatro gerações de mulheres que lutam para sobreviver em um ambiente de pobreza extrema. A louca Maria da Penha é a avó que precisa criar sozinha as duas netas: Maria de Fátima e a menina que nem nome tem, mas que "vê tudo, tudinho, até o que não deve". A mãe das duas, Maria Aparecida, filha de Maria da Penha, morreu no parto da filha mais nova que não tem nome. A última geração dessa sequência de Marias é a bisneta, filha de Maria de Fátima que, para decepção da velha Penha, não vai ter nome de santa, vai se chamar Scarlett. Em Vilaboinha cada ser vivente é uma vitória.
"Em Vilaboinha quase não tem criança pequena fora a bisneta da Penha. Não é difícil nascer em Vilaboinha, mas faz tempo que lá não tem parteira. Só nasce mesmo a criança que vai tateando até a beira, não cansa, o miúdo que vai tateando tateando até que alcança, na carne, a vida esse buraco imenso. As outras ficam perdidas, o cordão umbilical pelo pescoço, uma preguiça de sair da barriga, dormindo dentro mais um pouco. A bisneta da Penha arranjou jeito... a mãe dela Maria de Fátima que o diga. Olha, olha que beleza essa bichinha." (Pág. 45)
Ter nome de santa não parece ajudar em nada as mulheres de Vilaboinha a lutar contra a crueldade e violência dos homens, da cultura do estupro tão presente em nossa sociedade. O único personagem masculino do romance é o Tonho, viúvo de Maria Aparecida e, ao mesmo tempo, pai e marido de Maria de Fátima, agora pai também de Scarlett. Maria de Fátima sonha fugir de Vilaboinha para escapar de Tonho, das surras frequentes: "Tonho tantas vezes batendo em Fátima ela nem se importa, mulher nenhuma morreu de apanhar de marido, exceto as que estão mortas." O homem, na sua violência, é comparado e assombrado pelos cães que ele costuma matar a pauladas.
"Em Vilaboinha, lá para as bandas do norte, quase não tem cão nenhum fora o da vó Penha. Não é proibido, mas o Tonho não gosta do barulho deles todos latindo quando alguém vem chegando. O Tonho não gosta dos latidos, diacho, ninguém tem que saber que ele vem chegando, por isso ele mata tudo que é cão na paulada. Ele assobia, o Tonho. Chama o cão assim bem perto. O cão vacila, abaixa o rabo. O cão vacila, acaba que vai. Quer saber porque chamam. Ele acerta nas costas do bicho e fica ganindo baixinho. O cão, não o Tonho. O cão devagarzinho se vai morrendo. O Tonho não, ele gosta é de ouvir o latido esparramado do cão no chão com tripa sangue osso suspiro. Não do cão, do Tonho. Se bem que um pouco assim bem antes do cão ter morrido, um bem pouco antes, não dá nem pra dizer quem é cão e quem é Antônio. Fátima tem certeza: — É o cão." (Pág. 9)
Maria de Fátima consegue fugir de Vilaboinha depois de um fato surpreendente que, é claro, eu não vou adiantar aqui para manter o interesse do leitor. O romance passa a alternar momentos da vida de Maria de Fátima, vinte anos depois, em um bairro da periferia de São Paulo chamado de Vila Marta e tudo o que ela deixou em Vilaboinha. Ela mora em um barraco miserável, próximo a uma escavação que aos poucos vai revelando os fantasmas de seu passado em um processo de "desesterro", neologismo que empresta o título ao romance.
"O barraco de Fátima é quarto e cozinha, bem no meio da Vila Marta, ela mora sozinha . As poucas coisas que a Fátima tem ficam guardadas em caixas de papelão de biscoito Costone, amontoadas atropeladas juntas todas aos pés da cama, um colchão. As poucas coisas que ela tem não chegam e encher duas três no máximo quatro caixas, uma delas fica aberta, as tampas braços para o alto pedindo o que falta. Quando se mexe dormindo, Fátima guarda os pés juntos entra as caixas, ela toda espichada, toda espichada os pés entre as caixas, ela toda entre as caixas, gostoso demais, gostoso que nem guardar língua quente no buraco osso do dente." (Pág. 93)
Cuidado leitor distraído, este romance não é fácil e vai te pegar de jeito, como afirma a autora uma das muitas epígrafes semeadas ao longo do livro: "LER É: devorar a fome dos outros." Nada é o que parece no universo mágico dessas Marias brasileiras. Vilaboinha e Vila Marta são lugares imaginários e, contudo, tão reais. Sentir o sofrimento dessas mulheres pode ser mais importante do que entendê-las. Essa danada da Sheyla Smanioto escreveu um romance que é o sonho de muito escritor já consagrado e que vai permanecer por muito tempo, garanto.


TRANSFORMAÇÃO É: migração dentro.

MIGRAR É: ir embora e ainda assim ficar.
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