Joël Dicker - A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert

Literatura policial
Joël Dicker - A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert - Editora Intrínseca - 576 Páginas - Tradução de André Telles - Lançamento: 17/05/2014 (Leia aqui um trecho disponibilizado pela Editora).

Este romance policial do jovem autor suíço Joël Dicker foi lançado originalmente em 2012 e se transformou rapidamente em um best seller, traduzido para 32 idiomas, superou a marca de um milhão de cópias vendidas somente na França. No mesmo ano, levou o Grande prêmio da Academia francesa e foi finalista dos prestigiados Goncourt e Femina. No entanto,  a crítica especializada se divide em todo o mundo quanto ao real valor literário da obra, enquanto o grande público tem demonstrado avaliações positivas nas grandes redes sociais de leitores (média superior a 4 de um máximo de 5 no Goodreads e Skoob).

O protagonista é Marcus Goldman, um jovem escritor com menos de trinta anos, assim como o próprio Dicker, que tenta vencer uma fase de bloqueio criativo após o estrondoso sucesso de seu primeiro romance. Ele procura aconselhamento com um amigo, ex-professor de faculdade, Harry Quebert, que se tornou um dos mais renomados escritores americanos e vive em uma casa no litoral da pequena cidade fictícia de Aurora, em New Hampshire. Logo depois desta visita, Marcus fica sabendo pela imprensa da descoberta do corpo de uma jovem de quinze anos, Nola Kellergan ── desaparecida misteriosamente em 1975 ──, enterrado no jardim de Harry com o original do romance que o consagrou. À partir deste ponto, Marcus inicia uma investigação para ajudar o amigo e acaba descobrindo uma série de evidências que poderão livrá-lo da prisão e da pena de morte, apesar do linchamento moral da sociedade por Harry Quebert ter mantido um relacionamento amoroso com uma adolescente de 15 anos na época. Entretanto, o caso terá muitas reviravoltas e o leitor constatará que nada é o que parece na pequena cidade de Aurora à medida que novas provas são descobertas.
"Durante os seis primeiros meses que sucederam o lançamento do livro, me contentei em aproveitar as delícias de minha nova existência. Pela manhã, ia ao escritório dar uma olhada nas matérias que haviam saído a meu respeito e ler as dezenas de cartas de fãs que chegavam diariamente, as quais eram, em seguida, organizadas por Denise em grandes arquivos. Então, satisfeito comigo mesmo e julgando ter trabalhado o suficiente, perambulava pelas ruas de Manhattan, causando um burburinho entre os transeuntes ao passar. Dedicava o restante do dia a usufruir dos novos direitos que ser uma celebridade me outorgava: o direito de comprar tudo que me desse na telha, o direito de acesso aos camarotes VIP do Madison Square Garden para acompanhar os jogos dos Rangers, o direito de caminhar pelos tapetes vermelhos ao lado de astros da música, de quem, quando eu era mais jovem, comprara todos os discos, o direito de sair com Lydia Gloor, atriz principal da série de televisão do momento e disputada por meio mundo. Eu era um escritor famoso; tinha a impressão de exercer a profissão mais bonita que existe. E, certo de que meu sucesso duraria para sempre, não me preocupei com as primeiras advertências do meu agente e do meu editor, que me intimavam a voltar ao trabalho e começar a escrever meu segundo romance." (Pág. 18)
Na sua estrutura narrativa, o autor utiliza um recurso muito comum na literatura policial chamado de "plot twist", ou seja, uma mudança radical na direção em que o leitor é levado pelas investigações, geralmente no final do romance para criar um efeito de surpresa. Um primeiro problema que me incomodou bastante neste livro foi o uso indiscriminado deste recurso, muitas vezes comprometendo a credibilidade do argumento ou o perfil psicológico dos personagens, alguns deles muito promissores como a própria vítima Nola Kellergan. Nos textos de ficção policial o argumento precisa de um mínimo de veracidade para que o leitor não se sinta traído, principalmente depois de mais de quinhentas páginas, notadamente um formato nada próprio a um thriller.

Outro ponto em que o romance deixa a desejar é quando o autor tem a ideia de introduzir trechos de um romance dentro de outro romance, uma técnica de escrita criativa muito louvável, como fez com muita propriedade David Mitchell em "Atlas de Nuvens", algumas resenhas me levaram a acreditar que seria um processo similar utilizado por Joël Dicker, mas aqui ele deixa escapar uma ótima chance porque os trechos citados do romance original de Harry Quebert são francamente decepcionantes, difícil de acreditar que o personagem tenha se tornado um escritor renomado com um texto tão pobre e sem interesse, uma série de clichês amorosos. A inevitável comparação com Lolita de Vladimir Nabokov é outro gancho que não se sustenta por muito tempo.

Naturalmente que a resenha de um romance policial não pode avançar muito na trama de forma a evitar os temidos e indesejados spoilers. Os pontos positivos ficam na empatia que o autor consegue criar entre leitor e protagonista, o escritor-detetive Marcus Goldman, assim como a agilidade no texto que certamente se transformará em um roteiro cinematográfico muito em breve. Na verdade, é muito pouco para que o romance seja considerado como um trabalho de literatura, mas não deixa de funcionar se o objetivo da leitura for apenas de entretenimento.
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